Eu estava “na” greve!

Não sou o professor Pasquali e nem professor de português, mas todos devem saber que existe uma grande diferença entre as expressões: “Eu estava em greve” e “Eu estava na greve”, as quais não estarei explicando aqui, até porque o foco desse texto é outro.

Eu, na verdade, estava na greve… sim, estava “na” greve… na greve dos outros. Mas como é que eu fui parar lá? Pois bem, a história aconteceu assim:

No dia 03 de setembro de 2008 o celular resolve me despertar às 5:30 da manhã, um pouco mais cedo do que o usual. Naquele dia eu precisava passar no caixa eletrônico para efetuar o pagamento de uma conta e, depois disso, faria tudo como de costume: caminharia por 20 minutos até chegar às margens da Rodovia Dutra e, em um de seus pontos de ônibus, estaria pegando o transporte da empresa rumo a mais um dia de labuta. Certo? Errado! Aquele seria um dia totalmente estonteante.

Como estava adiantado em minha caminhada, resolvi parar em uma praça para terminar de ler um livro que já estava quase no fim. O ônibus normalmente passava às 6:37h, mas ainda eram 6:15h e aquela praça estava a apenas 5 minutos do ponto.

Enquanto me entretia com a história do jornalista Zé Hamilton na guerra do Vietnã, vi que faltavam exatos 7 minutos para o ônibus passar. Caminhei em direção à Dutra, atravessei a sua passarela e ao descer rumo ao ponto, vi o meu ônibus partindo! Ele havia passado às 6:32h, 5 minutos mais cedo. O que fazer naquele momento?

Decidi então caminhar a um ponto de ônibus mais próximo da rodoviária para poder fazer a viagem (esqueci de citar, mas trabalho em outra cidade).

Enquanto andava pela marginal da rodovia rumo ao novo ponto, me deparei com uma fila de ônibus parada no acostamento. Segui o meu caminho. Enquanto passava ao lado daqueles ônibus, percebi algumas pessoas descendo deles, enquanto outras gritavam através das janelas: “Vai pelego, vai andando pelego”… fora os palavrões e as risadas.

Foi naquele momento que percebi que não caminhava mais só, estava agora acompanhado de vários funcionários, indo em direção a empresa deles.

Resolvi então por em prática a minha futura profissão e interroguei um senhor que caminhava ao meu lado: “O que está acontecendo aqui?”, que de pronto me respondeu: “Você não está sabendo? A Conlutas e a Cut estão na porta da Petrobrás e não estão deixando ninguém entrar. Haverá uma Assembléia entre os trabalhadores, já que a Petrobrás não quer pagar a ajuda de custo às empresas contratadas”. Com a pergunta dele “Você não está sabendo?”, assumi que ele achava que eu também era funcionário da Petrobrás. Foi quando ele me perguntou: “Em qual departamento você trabalha?” Expliquei que eu estava ali só de passagem, e continuamos caminhando.

Quando chegamos no meio daquela multidão, senti o clima tenso. As pessoas estavam impacientes, a situação estava muito indefinida. Foi quando ouvi de um outro funcionário que disse que “em julho a Petrobrás, juntamente com as empreiteiras (Consórcio ECOVAP, Camargo Correia…), havia demitido por “justa-causa” cerca de 140 trabalhadores. Este fato gerou uma reação por parte dos 12 mil trabalhadores daquela obra, que realizaram imediatamente nova paralisação, exigindo a reintegração dos demitidos. A Petrobrás teria então autorizado a entrada do batalhão de choque no interior da refinaria durante a noite para reprimir os manifestantes. Utilizando-se de bombas de “efeito-moral”, tiros, spray de pimenta e muita truculência, poderia ter provocado um acidente sem proporções calculáveis, pois, como todos sabem, uma refinaria petrolífera é uma área de alto grau de riscos e explosões, o que poderia ter conseqüências desastrosas.”

Enfim, o problema já se alastrava a meses, e eu estava lá, na greve dos trabalhadores da Petrobrás. Mas eu não estava em greve, eu era um mero forasteiro perdido naquele meio!

Após coletar as informações que queria, resolvi ir embora. Mas o pior ainda estava para acontecer.

Quando já estava me afastando daquela multidão, repentinamente fui questionado em alto e bom tom: “Você não é o fulano de tal do RH?” Todos olharam em minha direção.

Meu Deus! O que está acontecendo?! Naquela hora eu não estava com um frio só na barriga, mas no corpo inteiro! O que eu iria dizer? “Não, eu só estou aqui de passagem, trabalho em outra cidade, em outra empresa”. Não ía colar. Por incrível que pareça, a verdade não ía colar naquele momento.

Resolvi acelerar meus passos, não em fuga, mas na direção daquele que me interrogou. Quando estávamos frente a frente, perguntei a ele se não queria me dar uma entrevista, porque eu era um repórter do jornal tal (que certamente não vou mencionar aqui) e precisava escrever uma matéria sobre o que estava acontecendo. Na mesma hora o rapaz abriu um sorriso e, como se estivesse confessando ao padre, resolveu me contar todo o ocorrido. Aliviado, agradeci e parti.

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3 comentários

Filed under Cotidiano

3 responses to “Eu estava “na” greve!

  1. ALAN BATISTA

    garoto esperto!

  2. Hyon

    Quero ver isso no Fantastico !!!! kkkkk

  3. Giglio

    BOA GAROTO !!!!

    Podia ser pior, quando perdeu o “bus” poderia começar a chover.

    Gostei da sua resposta…. agora coloca uma enquete no site pra ver se os leitores gostariam de saber o jornal ou não, rsrsr

    Abs

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