Se tem fama, deita na cama

Chitão que sempre deu um jeito pra tudo, não conseguiu se adaptar ao exterior… ou foram eles que não se adaptaram ao malandro?

Cíntia Magalhães e Maurício Baccarin

Governador Valadares envia mais um de seus filhos para a terra prometida. Washington Luís da Silva, vulgo Chitão, 25 anos, como todo bom brasileiro de baixa renda, deu um “jeitinho” de morar nos Estados Unidos, conseguindo um visto de turista para conhecer o Disney World.

Chegando aos “states”, quase foi barrado pela imigração, talvez por ser negro ou por não conseguir justificar sua baixa renda. Entretanto, mesmo com seu inglês “the book is on the table”, o mineiro arrumou uma maneira de se livrar dos questionamentos e seguiu em frente.

Articulado, Chitão aproveitou os seus sete dias de turismo na Disney, mas na hora de voltar para casa, procurou ajuda de um parente distante que morava em Miami, que “ajeitou” para ele ficar por ali. Washington começava, enfim, a construir sua vida americana.

Com o tempo o brasilianismo do jovem foi mostrando suas faces. Será que o tão esperto Washington Luís da Silva não percebia que as limpas ruas de Miami se sujavam com as embalagens de produtos que consumia e com sua falta de educação? Esse “jeitinho brasileiro” não combinava com aquela nova cultura e, mais cedo ou mais tarde, Chitão poderia ser pego. Por que será que toda vez que ia às compras, os alto-falantes das lojas anunciavam a presença de um brasileiro?

Da Silva começa a perceber os olhares desconfiados daqueles que não compactuavam com seu estilo de vida, estilo esse muitas vezes aclamado em nosso país. O fato é que a Lei de Gérson é repudiada pelos cidadãos do primeiro mundo e o “espertalhão” não conseguia enxergar isso plenamente. Será que esse tal de “jeitinho” estava cegando Chitão?

Ignorando os costumes locais, talvez por estar acostumado com a impunidade e achar bonito levar vantagem em tudo, Washington continuava a pisar na grama, escutar música alta nos ônibus, consumir bebida alcoólica nas ruas, dirigir em alta velocidade e entrar em locais proibidos, não dando atenção às placas de sinalização. Ele até começou a ganhar uma graninha fazendo cópias de programas de computador para seus amigos brasileiros.  Um gênio de esperteza: Brasil-sil-sil!

Por falar em amigos, Chitão frequentemente saía com a “brasileirada”. Os malandros iam de restaurantes a boates, sempre deixando as marcas da inconveniência devido às badernas e a despreocupação com o tom de suas conversas. Quase sempre os diálogos eram na língua portuguesa, constrangendo a maioria, que não entendia o porquê de tantas risadas escandalosas.

De dentro do seu carro, o descarado assobiava e elogiava americanas bonitinhas, orgulhando-se da virilidade que, em sua cabeça, somente os brasileiros possuíam. Pior que isso, anunciava aos quatro cantos que um primeiro “date” sem beijos – costume bem americano – era coisa de “boiola”. Homem que é homem, beija a mulher de primeira!

Certa vez, Chitão resolveu frequentar um curso de inglês. Isso porque após cinco anos morando nos Estados Unidos, seu inglês pouco havia deslanchado e, assim, não dava para ele tirar o tão desejado “Green Card”. Porém, para sua tristeza, foi convidado a se retirar da escola por chegar 20 minutos atrasado em todas as aulas, atrapalhando o desenvolvimento da turma. Atrasos, aliás, eram sua marca registrada. Ao concorrer a uma vaga de emprego não passou para a próxima fase, por ter deixado seu futuro chefe esperando-o para a entrevista.

Infelizmente, para Washington Luís da Silva, a impunidade não costuma atrasar na América do Norte. Por causa das arruaças em seu apartamento, os vizinhos de Chitão resolveram chamar a polícia que imediatamente deportou o nosso “João Grilo”.

Chitão é recebido de braços abertos por seus humildes pais, uma vez que o “meninão” deu um “jeitinho” de enviar dinheiro para o Brasil e, assim, puderam comprar uma casinha e montar uma quitanda no município de Governador Valadares. Semana que vem, o prefeito vai lhe dar o título de “Cidadão Valadarense”.

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3 comentários

Filed under Cotidiano

3 responses to “Se tem fama, deita na cama

  1. Felipe Matheus

    Excelente ….. exatamente isso que ocorre!

  2. Cíntia

    O primeiro de muitos que escreveremos juntos? ha ha
    Ficou legal né?
    Parabéns, você arrasou!
    Certeza que vai entrar na Piauí.

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